Variação #5:

por Marcos Nunes*

Tornei-me o sangue que esguicha do célebre demônio branco, quando Rustam o racha no meio com sua espada maravilhosa; e estava nas dobras dos lençóis entre os quais ele faz furiosamente amor com a filha de seu anfitrião, o rei de Turã. Sim, eu estava e estou em toda parte, sempre. (…) Que sorte tenho de ser o Vermelho! Sou o fogo, sou a força! Todos me notam e me admiram, e ninguém resiste a mim. Devo ser franco: para mim, o refinamento não se esconde na fraqueza nem na sutileza, mas reside na firmeza e na determinação. Eu me exponho, pois, aos olhares. Não tenho medo nem das cores nem das sombras; menos ainda da multidão ou da solidão. Que prazer tenho ao pegar uma superfície oferecida ao meu ardente triunfo: eu a encho, expando-me nela; os corações se embalam, o desejo aumenta, os olhos se arregalam e todos os olhares brilham! Olhem para mim: é bom viver! Vejam como é bom ver! Viver é ver. Podem me ver em toda parte, creiam: a vida começa e se acaba sempre comigo.

In: Meu nome é vermelho, de  Orhan Pamuk.

Meu nome é vermelho

Ele certamente se perdeu percorrendo as vielas e esbarrando com os vendedores de narguilé ou, quem sabe, com as mulheres a preço, dissimulando a profissão com recatadas vestes em azul claro.

(De fato o aprendiz recebera ordens de adquirir pigmentos variados no principal estabelecimento de Istambul, juntamente com o itinerário regular, passando pelas avenidas e cortando caminho somente por três vielas confiáveis, mas ele, esperto, sabia que se percorresse rota alternativa teria tempo para apreciar, no estúdio do venerável Hasan al-Su’udi, o desenvolvimento das últimas iluminuras no livro encomendado pelo sultão em comemoração à Hégira) Continue lendo

Variação #4:

  por Marcos Vinícius Almeida*

Vende-se: sapatos de bebê, sem uso.

Ernest Hemingway

Breviário de Salomão.

amor

Feito a escova de dentes que caísse, abandonada atrás da pia do banheiro, onde duas semanas depois, ele a encontraria com as cerdas esturricadas; primeiro surpreso, você esteve aí esse tempo todo, e depois, sem culpa, enfiaria no lixo, porque outra escova, nova e de melhor qualidade, estava guardada no armário.

***

violência

Quando o pai saía com a testa suada, a mãe entrava no quarto e dizia para a menina que ela deveria esquecer aquilo. Então, lhe dava o chocolate. Continue lendo

Variação #3:

por Israel Fabiano Souza*

Nós, as sectoriais, pensou a morte, somos as que realmente trabalhamos a sério, limpando o terreno de excrescências, e, na verdade, não me surpreenderia nada que, se o cosmo desaparecer, não seja em consequência de uma proclamação solene da morte universal, retumbando entre as galáxias e os buracos negros, mas sim como derradeiro efeito da acumulação das mortezinhas particulares e pessoais que estão à nossa responsabilidade, uma a uma…

In: As intermitências da morte, de José Saramago

As implicações filosóficas da morte

Reli mais uma vez a lista: estava completa. Mesmo assim faltava um. Olhei para um lado, olhei para o outro e nada de encontrar o miserável que me faltava aos olhos. Despachadas todas as almas, fui cuidar de verificar mais atentamente o que havia acontecido. Foi quando vi o senhor lá em cima, no barranco, a olhar para baixo. Não pude acreditar na ousadia daquele ser que insistia em não querer descer. Tive que ir até lá. Num átimo estava eu perto da criatura que havia me tirado do sério e, acreditem, nestes milênios todos que estou a acompanhar o fenômeno vida neste planeta, foram poucas as vezes que conseguiram fazer meu estômago ferver de cólera, salvo os revolucionários e os filósofos: estes sim, são um estorvo à minha pessoa! Continue lendo

Variação #2:

por Marcos Nunes*

Encontrei algumas pessoas que já vinham correndo e voltei com elas. Nessas alturas, a casa não era mais que uma horrível e imponente pira funerária, monstruosa pira funerária que iluminava tudo, pira funerária onde homens ardiam, e ele também estava sendo queimado. Ele, ele, meu prisioneiro, o novo Ser, o novo Senhor, o Horla! De repente, o telhado desabou entre as paredes, e um vulcão de chamas voou até o céu. Pelas janelas abertas naquela fornalha, vi as chamas disparando e pensei que ele estivesse lá, naquele forno, morto. Morto? Talvez?… Seu corpo? Não seria seu corpo, transparente, indestrutível pelos meios que conseguiam matar os nossos? E se ele não estivesse morto?…

Talvez só o tempo tenha poder sobre esse Ser Invisível e Terrível. Qual a razão desse corpo transparente e irreconhecível, esse corpo pertencente a um espírito, se também tem de temer doenças, fraquezas e ruína prematura? Ruína prematura? Todo o terror humano tem aí sua origem! Depois do homem, o Horla. Depois daquele que pode morrer todo dia, a toda hora, a todo momento, de qualquer acidente, veio o que morreria apenas na hora, no dia e no minuto apropriado, porque tocara os limites de sua própria existência! Não… não… sem dúvida… não está morto… Então… então… acho que terei de me matar!…

In: O Horla, de Guy de Maupassant

Rio de Janeiro, antes do Sena

Ele nasceu em São Paulo; sempre pressentido, nunca visto. A maioria parecia sorrir diante da hipótese, negava qualquer premonição como coisa de gente supersticiosa, sem informação, do tempo da iluminação à base de archotes, da dança da chuva, “auá, auá” faziam e dançavam, gozando.

Entretanto, não foi por falta de provas materiais, quer dizer, pela ausência de certas coisas materiais, e alguns movimentos de objetos incapazes de moto próprio.

Mas alguns insistiam:

- Não passa de medo em crescendo, motivado por coincidências banais que ratificam os temores, acumulando-os até o pânico.

- Mas ele está entre nós, aliás vários deles; são invisíveis, mas existem, não são uma doença da mente.

- Há algum parecer médico conclusivo?

Continue lendo

Variação #1:

por Mayra Lopes do Couto*

SACHA

Varvara Mikhailovna quase nunca saía de perto de mim. Seu rosto doce e redondo, o cabelo castanho e cacheado, reconfortavam-me. Quando papai saía do quarto, ela subia na cama e me abraçava, esfregando sua face na minha, tão próxima, sem nenhum medo de pegar minha doença.

Nós nos havíamos tornado grandes amigas. Embora nos conhecessemos há muitos anos, em Moscou, não nos víamos há bastante tempo. Mas nossa correspondência se tornou mais extensa e íntima e, finalmente, convenci mamãe a deixá-la vir morar conosco. Trabalho de secretária é sempre necessário em Iasnaia Poliana, e Varvara sabe datilografar e tomar ditados.

Agora, está aqui há vários meses e começamos a nos amar, no puro amor de Cristo. Partilhamos todos os temores, todas as esperanças. Costumamos nos tocar: uma mão na outra, queixo no queixo. Chamamos e respondemos, alternadamente, deleitando-nos com o fluxo do verdadeiro afeto. (p. 104-105)

A visita a Mechetcherkoie, para mim, não era a mesma coisa sem Varvara. É doloroso para mim separar-me dela, mesmo por pouco tempo. Mas prometi escrever todos os dias. De alguma forma, o pensamento de poder escrever cartas afetuosas tornou a separação suportável, até atraente.

Na noite anterior à partida fui às escondidas para o quarto de Varvara, quando a casa toda já dormia, e coloquei a cabeça em seu ombro; aninhei-me junto dela durante uma hora, ou mais, escutando sua respiração, espiando a elevação ritmada de seus seios, como ondas encapelando-se ao largo, quebrando-se na praia, recolhendo-se, encapelando-se outra vez. A mão dela dobrava um cacho do meu cabelo para frente e para trás. Foi mais lindo do que dormir. (p. 159-160)

PARINI, Jay. A Última Estação. Os últimos dias de Tolstói. Tradução: Sonia Coutinho. Rio de Janeiro: Rocco, 1991.

 

Varvara Mikhailovna

Nunca deixei de me corresponder com Sasha. Estudamos juntas em Moscou e, enquanto crescíamos, Leão Nikolaievitch já era um grande escritor e tornou-se o homem mais importante da Rússia. Lembro-me de que Sacha sempre manteve os pés no chão, ao contrário de seus irmãos, deslumbrados com a riqueza, a fama, o sobrenome de peso e os títulos de nobreza do pai. Naturalmente, quando Leão Nikolaievitch, em sua infinita sabedoria e mantendo um profundo contato com os camponeses locais entendeu a fonte dos problemas entre as classes e demonstrou total e completa ojeriza aos aprisionadores modelos burgueses e à má distribuição do capital russo, ele fez inúmeros inimigos enquanto, ao mesmo tempo, tornava-se ainda mais amado até mesmo pela parte analfabeta da população. Continue lendo