Variação #1:

por Mayra Lopes do Couto*

SACHA

Varvara Mikhailovna quase nunca saía de perto de mim. Seu rosto doce e redondo, o cabelo castanho e cacheado, reconfortavam-me. Quando papai saía do quarto, ela subia na cama e me abraçava, esfregando sua face na minha, tão próxima, sem nenhum medo de pegar minha doença.

Nós nos havíamos tornado grandes amigas. Embora nos conhecessemos há muitos anos, em Moscou, não nos víamos há bastante tempo. Mas nossa correspondência se tornou mais extensa e íntima e, finalmente, convenci mamãe a deixá-la vir morar conosco. Trabalho de secretária é sempre necessário em Iasnaia Poliana, e Varvara sabe datilografar e tomar ditados.

Agora, está aqui há vários meses e começamos a nos amar, no puro amor de Cristo. Partilhamos todos os temores, todas as esperanças. Costumamos nos tocar: uma mão na outra, queixo no queixo. Chamamos e respondemos, alternadamente, deleitando-nos com o fluxo do verdadeiro afeto. (p. 104-105)

A visita a Mechetcherkoie, para mim, não era a mesma coisa sem Varvara. É doloroso para mim separar-me dela, mesmo por pouco tempo. Mas prometi escrever todos os dias. De alguma forma, o pensamento de poder escrever cartas afetuosas tornou a separação suportável, até atraente.

Na noite anterior à partida fui às escondidas para o quarto de Varvara, quando a casa toda já dormia, e coloquei a cabeça em seu ombro; aninhei-me junto dela durante uma hora, ou mais, escutando sua respiração, espiando a elevação ritmada de seus seios, como ondas encapelando-se ao largo, quebrando-se na praia, recolhendo-se, encapelando-se outra vez. A mão dela dobrava um cacho do meu cabelo para frente e para trás. Foi mais lindo do que dormir. (p. 159-160)

PARINI, Jay. A Última Estação. Os últimos dias de Tolstói. Tradução: Sonia Coutinho. Rio de Janeiro: Rocco, 1991.

 

Varvara Mikhailovna

Nunca deixei de me corresponder com Sasha. Estudamos juntas em Moscou e, enquanto crescíamos, Leão Nikolaievitch já era um grande escritor e tornou-se o homem mais importante da Rússia. Lembro-me de que Sacha sempre manteve os pés no chão, ao contrário de seus irmãos, deslumbrados com a riqueza, a fama, o sobrenome de peso e os títulos de nobreza do pai. Naturalmente, quando Leão Nikolaievitch, em sua infinita sabedoria e mantendo um profundo contato com os camponeses locais entendeu a fonte dos problemas entre as classes e demonstrou total e completa ojeriza aos aprisionadores modelos burgueses e à má distribuição do capital russo, ele fez inúmeros inimigos enquanto, ao mesmo tempo, tornava-se ainda mais amado até mesmo pela parte analfabeta da população.

Conde Nikolaievitch sempre havia sido um sonhador e começou uma nova fase em seus escritos onde circulavam ideias sobre igualdade , amor e liberdade. Todos nós éramos igualmente destinados à grandeza e dignos da atenção do grande Leão Tolstói. A vida de qualquer um lhe era interessante e sagrada e eram poucas as pessoas que conseguiam entender plenamente esta maneira de pensar. No fundo, tudo, toda a base da filosofia de Tolstói encontra-se em seus romances principais: Guerra e Paz e Anna Karenina, mas, é claro, os tolstoianos têm outras coisas a fazer, não perdem tempo com romances.

Eu e a pequena Sacha mantivemos durante muitos anos uma correspondência íntima, terna e constante. E, no entanto, eu nunca imaginei que minha vida me traria até aqui. O dia em que desci em Iasnaia Poliana por um pedido de minha querida Alexandra. Ela me esperava à entrada da Casa Grande e me levou ao meu quarto pessoalmente. Estranhei não ficar em uma ala separada da casa, junto com os outros empregados.

Sacha me disse, em uma carta, que a minha experiência em datilografia e em tomar ditados seria muito apreciada em Iasnaia Poliana. Ela gostaria de ter um pouco de ajuda, o que, numa propriedade daquelas proporções, qualquer ajuda a mais que se tenha, nunca parece ajuda demais.

Meu quarto ficava bem próximo ao dela. Creio que quatro ou cinco quartos nos separavam. O que não separava não eram os inúmeros cômodos entre nós e sim as portas, estes barulhentos empecilhos que intermediavam nossas noites. Às vezes, Sacha mandava alguém da equipe de criados regulares me chamar aos seus aposentos, eu já com a minha camisola, ela com a dela, antes mesmo do Conde passar pelo quarto dela para que pudessem ter sua revigorante conversa noturna. Faziam isso quase todas as noites. Quando ele saia, ela me pedia para que lhe soltasse os cabelos. Eu desfazia as tranças delicadamente com meus dedos passando pelos fios ainda frizados pela rigidez delas. As tranças eram presas muito apertadas. Não me admira as enormes enxaquecas que a pequena Sacha sofria. Seus cabelos castanhos deslizavam em cascatas com o mesmo brilho que ela inteira exalava. Este era quase o único momento do dia em que eu sentia que ela poderia ser ela mesma, tão diferente da sua taciturna severidade e rigidez, que eram provocadas pela abstinência, na qual ela acreditava com todas as forças.  Intimamente, ela se parecia com uma santa, rindo quando o pente de madeira esbarrava sem querer um pouco doloridamente em sua cabeça.

O ar pesava em Iasnaia Poliana. Sofia Andrievna e Leão Nikolaievitch estavam tendo mais problemas do que nunca e brigavam todos os dias. Sofia conhecia demais o seu marido e, como todos aqueles nascidos nos berços de prata da aristocracia russa, ela farejava aproveitadores enquanto que o senhor Nikolaievitch tinha muito amor dentro de si, além de uma crença verdadeira na Revolução, para pensar que alguém poderia estar se aproveitando dele. Então quando ele decidiu partir, levando consigo ninguém mais que seu médico, ficamos eu, Bulgakov e Sasha a tomar conta de Sofia Andrievna. Enquanto eles andavam de trem pela Rússia, pude presenciar o abandono da Condessa frente ao desespero que sentia pelo fato de que, seu amado marido, o seu Liovotchka, ter tido coragem de abandoná-la a esta altura da vida, depois de tantos anos da mais cega dedicação e de um amor que suportou o insuperável para existir, porque, não poderia deixar de o ser.

Alguns dias depois, Sacha foi chamada à casa de uma de suas irmãs para acompanhar o Conde no restante de sua viagem. Ela parecia quase feliz de partir. Disse-me que todos os dias me escreveria e que tal fato era o que animava a passar os dias longe de mim. Eu sabia que era mais do que isto: ela não via a hora de estar ao lado de seu pai, afinal, ela dedicara sua vida inteira a ele.

Fora difícil aguentar os lamentos de Sofia Andrievna durantes estes dias de extrema solidão, os seus ataques típicos de quem pertence à realeza – ou, no caso dela, à nobreza, mas Sofia se achava mais importante do que a Czarina.

Todos os dias enormes cartas de Sacha chegavam. Somente no fim das cartas ela dizia que estava sentindo falta de mim. As primeiras páginas variavam entre o estado de saúde do Conde, o seu itinerário e as paisagens de uma Rússia que lhe era totalmente desconhecida, uma descrição precisa de pessoas humildes e da solenidade com a qual estas mesmas pessoas tratavam o amado escritor Leão Tolstói.

Finalmente chegou o dia em que, por telegrama, ela me pediu para me reunir a ela. A saúde de seu pai havia piorado severamente, todos os jornalistas e fotógrafos acamparam em frente ao seu refúgio. Tomei um trem o mais rápido que pude, deixando Sofia Andrievna aos cuidados de Bulgakov, enquanto tomei todas as precauções para que eu não fosse seguida e para que meu paradeiro não fosse descoberto por nenhum dos empregados. Tive que sair no meio da noite. Cheguei junto com os primeiros raios matutinos. Mais uma vez, Sacha estava à porta me esperando. Eu estava cansada, a viagem havia sido longa. Ela também estava cansada, fora a sua vez de ficar de vigília durante a noite. Perguntei se havia alguma pensão ou hotel perto da estação para que eu me instalasse e Sacha me respondeu que estavam hospedados na casa de um funcionário da estação mas que, entretanto, estavam muito bem acomodados. Podíamos caminhar até lá. Quando voltei a erguer minha mala, Sacha também havia se precipitado para segurá-la e nossas mãos, envoltas em luvas grossas de pelica, se tocaram. Seria a primeira vez naqueles dias. Chegamos a casa, todos ainda dormiam, exceto pelo seu médico, que andava de um lado para o outro, esperando que seu paciente acordasse para tirar a pressão, medir a temperatura, os exames de costume a que o Conde Nikolaievitch era submetido pela manhã e ao cair da noite.

Sacha se encaminhou para o que parecia ser um quarto de hóspedes onde eu deixei minha bagagem. Pedi permissão para me trocar, colocar meus trajes de dormir e Sacha disse que era uma ótima ideia, disse que ia pegar os dela também. Ambas tínhamos nossas camisolas, eu fui a primeira a me deitar na cama enquanto Sacha desfazia suas tranças.

Quando ela se deitou, o perfume dos seus cabelos ondulados encheu todo o ar a minha volta. Virei-me para ela e disse: senti falta disto. Ela me perguntou o que era isto, se ela ou seus cabelos. Respondi que senti falta da suspensão do tempo e espaço, que significavam todo o tempo em que eu passava com ela.

 

*Mayra Lopes do Couto :

eternamente estudante de Letras e eternamente flertando com Filosofia. É graduada em Letras (Português / Alemão), especializada em Filosofia Moderna e Contemporânea e em Metáfora e, atualmente, mestranda de Literatura Comparada. Tudo pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro. É uma carioca com um pé no Rio Grande do Sul, outro na Espanha. Tem um braço na Polônia e o resto do corpo no Rio mesmo. Passeia fluentemente pela literatura mundial. E é entusiasta de idiomas desafiadores. Vive de livros, música e metáforas de criação de mundo. Bloga em: http://pointlesswriting.wordpress.com. Twitter: @notaconcept.

Anúncios

5 Respostas para “Variação #1:

  1. A ideia de Variações é ótima. Dar uma leitura nova aos livros já existentes é realmente algo inovador e muito gratificante de ser lido.

    Apesar de eu não ter lido a obra principal, gostei muito da variação. Parabéns à autora e ao blog.

    Um abraço.

  2. Comentário de marcos nunes (http://rachelsnunes.blogspot.com/):

    o texto reverso ficou bom e aumentou a sugestão erótica contida no original, só ressenti-me da introdução, explicativa em demasia. Tchekov dizia que era de boa técnica cortar sempre as primeiras e as últimas linhas de um conto, e creio que ele tinha razão: isso deixa o leitor meio suspenso em uma situação não inteiramente dada e nunca in teiramente resolvida, de forma que o espaço para diálogo é maior. Obviamente, casa de ferreiro espeto de pau: eu mesmo não faço isso!

  3. Pingback: As variações – ou literariedades parte I « Passionless, pointless

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s