Variação #2:

por Marcos Nunes*

Encontrei algumas pessoas que já vinham correndo e voltei com elas. Nessas alturas, a casa não era mais que uma horrível e imponente pira funerária, monstruosa pira funerária que iluminava tudo, pira funerária onde homens ardiam, e ele também estava sendo queimado. Ele, ele, meu prisioneiro, o novo Ser, o novo Senhor, o Horla! De repente, o telhado desabou entre as paredes, e um vulcão de chamas voou até o céu. Pelas janelas abertas naquela fornalha, vi as chamas disparando e pensei que ele estivesse lá, naquele forno, morto. Morto? Talvez?… Seu corpo? Não seria seu corpo, transparente, indestrutível pelos meios que conseguiam matar os nossos? E se ele não estivesse morto?…

Talvez só o tempo tenha poder sobre esse Ser Invisível e Terrível. Qual a razão desse corpo transparente e irreconhecível, esse corpo pertencente a um espírito, se também tem de temer doenças, fraquezas e ruína prematura? Ruína prematura? Todo o terror humano tem aí sua origem! Depois do homem, o Horla. Depois daquele que pode morrer todo dia, a toda hora, a todo momento, de qualquer acidente, veio o que morreria apenas na hora, no dia e no minuto apropriado, porque tocara os limites de sua própria existência! Não… não… sem dúvida… não está morto… Então… então… acho que terei de me matar!…

In: O Horla, de Guy de Maupassant

Rio de Janeiro, antes do Sena

Ele nasceu em São Paulo; sempre pressentido, nunca visto. A maioria parecia sorrir diante da hipótese, negava qualquer premonição como coisa de gente supersticiosa, sem informação, do tempo da iluminação à base de archotes, da dança da chuva, “auá, auá” faziam e dançavam, gozando.

Entretanto, não foi por falta de provas materiais, quer dizer, pela ausência de certas coisas materiais, e alguns movimentos de objetos incapazes de moto próprio.

Mas alguns insistiam:

– Não passa de medo em crescendo, motivado por coincidências banais que ratificam os temores, acumulando-os até o pânico.

– Mas ele está entre nós, aliás vários deles; são invisíveis, mas existem, não são uma doença da mente.

– Há algum parecer médico conclusivo?

– Algum físico, algum cientista?

– Não.

– Meras crendices, então. Insustentáveis. Como qualquer crença, seus alicerces estão nas suas fantasias, e estas, tremulantemente dispostas sobre um medo de seres abissais, demônios e travessia do Hades…

– Sim, mas o doutor Luís Pacheco Soares da Cunha, um luminar, na ausência de provas conclusivas, mesmo assim foi incapaz de duvidar da ação de criaturas desconhecidas, diante de circunstâncias irrefutáveis, como, por exemplo, o fato de que apenas água e leite desapareciam das residências, várias delas, sem qualquer ligação, de pessoas não familiares, algumas até inimigas umas das outras, aliás creditando umas às outras suas penas…

– Está aí, vai ver ambos estão com a razão; após a primeira brincadeira de menino, sobreveio outra, e depois vendetas sucessivas, que deveriam resultar em anedota, mas transformaram-se em tragédia devido à crença supersticiosa, somada aos ódios mútuos.

– Mas não apenas isso, não apenas. Pessoas definham a olhos vistos, todas sem qualquer doença diagnosticável.

– Pois aí está o nó. O fato de não haver diagnóstico depõe contra a ciência médica, daí o depoimento do nomeado doutor, capaz de referendar absurdos a admitir a própria ignorância.

– É, pode ser… pode ser.

A essa altura, São Paulo era uma cidade medíocre; um entreposto dos grandes interesses e fortunas de fora, das fazendas de Piracicaba até os confins do Paraná. Os males de uma gente pequena não afligia a capital, muito distante, ela mesma mais preocupada com doenças reais, como a febre amarela e a peste bubônica, embora mais atenta, na verdade, às pequenas maledicências, traições e sangue de mulheres casadas e homens traídos. No todo, um Império nada imperial, caótico e provinciano, a digerir modas de Paris sempre anacronicamente, sorvendo má literatura como fino biscoito de uma civilização desde então alimentando sua decadência eterna, mas por gosto, bem entendido.

O fato é que em São Paulo, fala a voz vinda não se sabe de onde, sinto-me só. Ando de casa em casa, sem necessidade de esgueirar-me, porque essas pobres criaturas humanas são incapazes de ver algo que não seja absurdamente concreto. Esses “seres superiores” o são menos que gatos e cachorros, todos atentos à minha passagem, receosos, mesmo que não cientes de minhas capacidades de subtração energética.

Pois disso adoecem eles, pobres interioranos. Roubo-lhes as forças, e eles murcham, lamentam, rezam tementes a um deus inexistente. Quase me compadeço, se não precisasse, por meu turno, também viver.

Quando a voz se cala, o efeito é o mesmo. Ninguém havia ouvido, e tornam ao silêncio como se dele não tivessem saído. Mas ele falou, e alguém está aqui para contar isso, e antes, digo antes daquele que contou mais adiante, depois da grande viagem.

Estamos no Brasil e, como se diz, ninguém é profeta na própria terra. Um narrador, onipresente, não é onipotente, mas está aqui para contar porque dele é o primeiro testemunho; séculos à frente, quem sabe, virá o reconhecimento, e o aviso prévio lhe será creditado ou, ao menos, seus termos serão apensados aos autos, autos que serão compostos quando poucos homens restarem, sendo os Horlas donos e senhores de tudo, e por destino imortais. Ou não? Como posso saber eu, apesar de todos os… pressentimentos.

Na cidade paulista, dirige-se o mencionado doutor Luís Pacheco à carruagem que o levará à Santos, daí ao porto da mesma cidade, dele ao navio e então, viajando pelo mar, chegar à capital, Rio de Janeiro, trazendo consigo amostras de… frascos vazios, onde antes havia leite ou água. Potes de cerâmica, alguns distintos, outros feitos por gente índia.

Mas a beleza não importa; o fato é que doutor Luís guardou os potes em sacos de farinha bem lavados, encerrou-os em baús e com eles dirigia-se ao Rio de Janeiro, levando “as provas do ofício”. Sem saber, levando também o Horla, algo entediado, montado ora sobre um ora sobre outro cavalo, embora pudesse simplesmente pairar sobre eles ou sobre a carruagem, sendo melhor opção ainda ir atrás do conjunto, carregado tão somente pelo fraco vácuo produzido pelo lento veículo, cujo tráfego era muito prejudicado, aliás, pelas péssimas condições da estrada.

Parênteses: o nome do ser. Não sei se fui roubado, mas, na minha boa fé, o pronunciava a torto e a direito, sem me importar com precedências. Nem sabia se viveria para escrever isso, e a prova que vivo estou aqui está, nessas parcas palavras de almoxarife, nome aliás que deve ser árabe, é muito esquisito, é como Horla. As pessoas têm paciência e criatividade, não sei como acontece, inventam essas coisas, mas eu não ajo assim; não inventei nem profissão nem o nome almoxarife, e muito menos batizei o Horla. O nome veio assim, soprado ao ouvido. Ao menos assim penso eu. E registrei. Digo, registrei na memória e agora escrevo, mas nesse meio tempo falei com meio mundo, e lá está o nome na história francesa.

Perco eu, perde o Brasil? Falam de nós, apesar de tudo. E é pena que, quando falam de nós, o nome é associado a coisa ruim. Ruim mas com um destaque: ruim para nós, não para ele. Ruim mais o futuro. Quem um dia poderia afirmar algo assim como “o futuro virá do Brasil”? Nada mais absurdo.

Ele fala mais uma vez sobre a bonita viagem, apesar dos trancos e barrancos, de São Paulo a Santos, e logo de Santos ao Rio de Janeiro, por mar:

Deixo em São Paulo um parente que fiz, a partir de mim mesmo, pois nós somos assim, fazemos nossos próprios parentes, ou amigos, como quiserem. Não deixa de ser divertido, embora o sentido dessa palavra me escape; aliás, devo dizer que o sentido de qualquer palavra me escapa, apenas capturo, e fica anotado o conceito para gerações futuras: as palavras não fazem sentido. Ainda irei ler, porque de tudo sei antes mesmo de saber, mas irei ler em Paris, está bem registrado em minha poderosa memória de todos os tempos, algo assim como “a vida é uma história contada por um idiota, cheia de som e de fúria, e sem qualquer significado”. Pois bem, de todas as coisas sem sentido e banalíssimas, esta é a que está mais bem contada, quer dizer, escrita, como outro dito da mesma lavra, popularíssimo até (essa gente, como eles às vezes se chamam, tem o hábito cretino de colecionar frases avulsas; eu como humorista natural, faço a mímese como ironia), segundo o qual “há mais mistérios entre o céu e a terra do que supõe sua vã filosofia”. E ponha vã nisso, meu caro, ponha vã nisso…

As pessoas gemem no interior da carruagem, mas eu sigo sereno como uma pluma, triste comparação, mas é a mais verdadeira e a que mais rapidamente surgiu nessa linguagem para vocês compreensível, mas para mim um mistério tão cheio de segredos que, assim penso, qualquer palavra é em si mesmo uma filosofia, embora diga de coisas, mas dessas coisas, na verdade, nada diz, pois, como sabemos, as coisas não são palavras.

Essa seria, se posso dizer assim, a minha filosofia natural, se natural pudesse ser uma filosofia e, mais ainda, filosofia algo que decorre do natural que, para a humanidade, é um profundo mistério, apesar de que, para o Horla, o Horla não é um mistério, o Horla é a subtração da soma de todas as coisas, bem entendido?

Não, não entendo. Sou um narrador, um narrador à espera de uma narrativa de viagem.

Sim, a viagem. Eu, humano, fiz várias vezes a primeira parte da viagem, de São Paulo a Santos, para uma única finalidade: tratamento médico. Sinto frequentes náuseas em São Paulo, com suas valas abertas, os dejetos revolvendo-se, toda a imundície dos restolhos de uma humanidade porca e doente…

Não posso reclamar aqui, não é a hora nem o lugar, mesmo porque estamos de passagem de São Paulo para Santos, passando, graças a um bom deus, se ele existir, por um território virgem ou, quando menos, semivirgem. Ah, os odores das florestas, com suas espécies vegetais, suas flores, suas águas, suas madeiras que recendem a bom vinho! Mas ele, creio, disso nada sabe, nada vê, porque, como ele disse, ou julgo que disse, nada mais é que a subtração da soma de todas as coisas e, como tal, deve trazer um bom bocado de tudo em si, de forma que, se precisasse ver e cheirar, bastaria ver e cheirar a si mesmo, enquanto nós, como ele disse, pobre humanidade, não pode nem vê-lo nem cheirá-lo, só idealizar que, enquanto aquilo que ele é ou diz ser, podemos deduzir, ele é ou pode ser tudo.

Com tais supremas filosofias alcançamos, enfim, as portas de Santos. O idealismo nos leva a isso, a tudo. E se o Horla pode ser tudo, podemos fazer outra equação a respeito do ser humano, ao mesmo tempo diferente mas também muito semelhante àquela que ele nos presenteou: a humanidade é a soma da subtração de todas as coisas, basta multiplicar e dividir.

Matutando nisso, volto ao doutor Luís, bom sujeito, mas desde o início da viagem vítima da mesma doença daqueles que julgou beneficiar com o exame científico daqueles objetos que levava ao Rio de Janeiro. De quando em vez, o Horla dele sorvia as forças, e tão matreiramente, com seu humor sobrenatural, que o doutor, infelizmente, só pode chegar em Santos… morto.

O baú com os pertences foi despachado para o Rio, nele constando, desde São Paulo, o endereço com seu destino final. Previdente ou sabedor dom Luís? Era um bom médico.

O mar quebrando na praia, o baú carregado por estivadores, sobre ele o Horla, condescendente com o esforço humano, sem sorver nenhuma energia adicional ao marinheiro de cais. Via o mar quebrando na praia… novidade? Não, ele já conhecia o mar, embora nunca o tivesse visto. Se tivesse boca, poderia bocejar e, antes de chegar a Paris e transformar-se em parisiense, revelar ao arguto observador seu ar blasé, acompanhado talvez por um cãozinho tão fantasmático e parisiense quanto ele.

O Horla, contaram-me os ventos, durante a viagem, alimentava lembranças de cousas futuras; por mero prazer estético, ia descarnando, um por um, os verdadeiros homens do mar, tão mais verdadeiros que nele eram lançados, depois de mortos. Assim, tão pós-modernamente (deuses, o que é isso?) construía a referência de um certo barco atracando solitário em um porto enfeitado por brumas, antecipatórias da desgraça que logo se abateria sobre a cidade, refém da peste trazida por Nosferatu, mas nesse meio-tempo seguia lentamente a embarcação, sem nenhum sobrevivente, tendo amarrado ao timão seu comandante exangue. Chegar em Paris sem um verniz de cultura, impossível, e como me verá Guy de Maupassant, através de seu personagem, se não for a guiar sorumbaticamente a nave com bandeira brasileira pelo rio Sena, vinda de outro Rio sem rio, o de Janeiro, a trazer uma globalização reversa, o futuro vindo do Brasil, a conjugação de todos os medos, deve haver uma metáfora aí, imagina o Horla, querendo perceber o que é uma metáfora.

 

*Marcos Nunes:

Praticamente anônimo; teve publicado um único conto em livro por força de classificação entre os escolhidos pelo caderno Prosa e Verso do jornal O Globo, no concurso Contos do Rio, conto esse intitulado Retrato do artista enquanto jovem carioca. Um volume de poemas quando jovem, editado pela Editora Dazibao, sob o título Viuseversa. Teve publicado um ensaio mais longo, denominado Um balão de ensaios, em uma revista de literatura da Universidade de Lisboa, em Portugal. Um romance às expensas do autor, intitulado O último a sair acende a luz, em 2009, Editora Usina de Letras. Dois outros romances disponíveis no site AGBOOK, para impressão por demanda, intitulados Juventude Futebol Clube e No meio da rua, um livro de contos, Um paralelista no labirinto e um de poesia, Poesia é uma prosa que se quebra. Compartilha conosco o blog de sua esposa: http://rachelsnunes.blogspot.com, e também o seu e-mail: marcosaugustonunes[a]hotmail.com.

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7 Respostas para “Variação #2:

    • O texto do Marcos vai ficar disponível como arquivo; mesmo que não dê pra você ler agora, quando você puder, pode procurar nos meses passados que estará bem aqui =) E, além disso, ainda esperamos contar com mais uma contribuição do Marcos no futuro, o que há de ser mais uma chance de leitura.

    • Não juro de pés juntos, pois este conto foi escrito uns 10 anos atrás, logo após a leitura d’O Horla, mas penso que sim, por isso observei o interessante aspecto de medo do “colonialismo reverso” e escrevi essa variante como pré história. Engraçado como pude publicar neste site gerido pela Bruna tantos e tantos anos depois. Tem coisas que parecem não dizer nada e, no fundo, não dizem nada mesmo.

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