Variação #3:

por Israel Fabiano Souza*

Nós, as sectoriais, pensou a morte, somos as que realmente trabalhamos a sério, limpando o terreno de excrescências, e, na verdade, não me surpreenderia nada que, se o cosmo desaparecer, não seja em consequência de uma proclamação solene da morte universal, retumbando entre as galáxias e os buracos negros, mas sim como derradeiro efeito da acumulação das mortezinhas particulares e pessoais que estão à nossa responsabilidade, uma a uma…

In: As intermitências da morte, de José Saramago

As implicações filosóficas da morte

Reli mais uma vez a lista: estava completa. Mesmo assim faltava um. Olhei para um lado, olhei para o outro e nada de encontrar o miserável que me faltava aos olhos. Despachadas todas as almas, fui cuidar de verificar mais atentamente o que havia acontecido. Foi quando vi o senhor lá em cima, no barranco, a olhar para baixo. Não pude acreditar na ousadia daquele ser que insistia em não querer descer. Tive que ir até lá. Num átimo estava eu perto da criatura que havia me tirado do sério e, acreditem, nestes milênios todos que estou a acompanhar o fenômeno vida neste planeta, foram poucas as vezes que conseguiram fazer meu estômago ferver de cólera, salvo os revolucionários e os filósofos: estes sim, são um estorvo à minha pessoa!

Antes de continuar a contar a minha história, deixe que eu me apresente. Muito prazer, meu nome é Morte. Sim, esta que vos fala agora é a mesma que a todo momento visita os agonizantes, os atropelados, os acometidos de infarto, os aparentemente saudáveis, os mortos de morte matada e de morte morrida, de fome, de ira, de inveja, de amor, de tristeza. Sou eu mesmo (porque usam tanto o feminino para o meu nome, afinal?) quem faz com que cruzem a tênue linha existente entre o que há de vivo e o que não existe mais. Mas por ora chega de apresentações, pois que não estou aqui para este míster, e deixem que eu continue com a história que estava a lhes contar.

Pois bem, dizia eu que, contraditoriamente ao que pode parecer, na própria morte jaz também um estômago, assim como um coração, um cérebro e muitos litros de sangue, ainda que estes não sejam da mesma natureza do que o de vós, mortais. Mas sobre isto é suficiente que saibam que a nós, seres ocultos do lado de cá, também as emoções acabam por nos arrebatar. E aquele pequeno ser ali, olhando profundamente para o fundo do rio da morte, do meu rio, onde são despejadas as almas que quando encontram o afluente do rio do Julgador do Destino (sim, há uma entidade chamada assim!) tomam parte no processo como réus e têm seus corações pesados na balança que vai dizer se vão para o céu ou para o inferno, repito, aquele ser desprezível aos olhos de qualquer entidade me despertou algo que denominais como curiosidade. Foi por isso que adiei o mergulho daquela alma e me coloquei ao seu lado, como que querendo entender o que é que ele tanto contemplava.

Geralmente, e aqui me escuso de novamente me desviar do caminho da prosa que venho tentando me ater, as pessoas que têm suas vidas ceifadas quando chegam aqui e vislumbram a verdade que as esperam seguem um procedimento mais ou menos padrão que ao longo de meus anos de vida, que morte alguma há de tirar, pude ter a chance de estudar meticulosamente. Alguns que aqui chegam se desesperam, porque em vida foram homens e mulheres de mau caráter – como os humanos costumam dizer – e fizeram de tudo contra a vida de outros e deles mesmos e sabem que neste terreno não possuem chance alguma de obter os prazeres e as delícias que os maus tratos alheios ou não forneceram em vida. Outros, quando sabem do que se trata este lugar maldizem seus deuses, rogam pragas e os xingam por os terem enganado com promessas vazias. A estes eu respondo mentalmente que vale mais atentar para quem está enganando quem, e interiormente eles mesmos sabem que os embustes dos quais se servem para atentarem contra seus deuses são, na verdade criaturas de um criador só: eles mesmos. Outros ainda, cônscios de onde estão ficam indignados com sua situação e se recusam a descer voluntariamente até a beirada do rio da morte para terem seus corpos (almas, se preferirem vocês humanos tão cheios dos melindres e das palavras soltas de seus significados) levados até meu compatriota (nunca entendi esta palavra que vosmecês usam para se dirigirem aos seus iguais em nascimento, mas uso-a aqui em meu contexto) Julgador do Destino. Meus lacaios têm um trabalho com estes, porque se recusam a aceitar as condições que aqui precisam acatar. Dizem que em vida não foram notificados do que havia em morte. E que o que procede aqui é um engodo, uma armação tomada a cabo para que eles não consigam se defender previamente das asserções que aqui encontram. Estes me dão um trabalho danado, mas aqui não há lei humana, nem advogados, ou melhor, há muito deles, mas não como promotores ou acusadores. E em poucos minutos a balbúrdia cessa e eles estão mergulhando no rio novamente. Malditos revolucionários. Maldita filosofia. Existem outros mais, que entram no rio sem dar um pio sequer. Destes eu gosto bastante, porque me poupam trabalho e energia. São, como costumo dizer, os amantes da perfeita logística. Eu poderia me demorar ainda mais com estes meandros, quer dizer, estas explicações do mundo de cá, mas volto ao tema que de início pôs começo a este escrito.

O homem continuava lá. Quieto. Atônito. Pasmo. Dei-lhe alguns minutos de presente e parece que o infeliz nem se apercebeu de quem estava ao seu lado naquele momento. Ficava ali, a fitar o precipício interminável que havia entre ele e o rio. Olhos arregalados, mãos envolvidas nos joelhos unidos. Finalmente não agüentei e perguntei.

– O que é que tanto olha, ô infeliz?

O homenzinho não pareceu se assustar comigo, o que me deixou ainda mais impaciente. Do outro lado da margem um de meus serviçais me perturba a contemplação da cena.

– Olha que está a chegar mais uma leva, minha senhora. Que fazemos com eles?

– Pois que fiquem esperando um pouco mais. Já terão uma eternidade para passar neste lado de cá. Que aguardem mais uns minutos, pois que todos ali nasceram de pelo menos sete meses. E se voltar a me chamar de “minha senhora” mais uma vez arrepender-te-á por toda a sua morte, ô animal desgraçado. Vai-te daqui e põe-te a fazer teu trabalho. Anda!

Ele foi. Literalmente com o rabo entre as pernas.

Voltei finalmente minha atenção para o humanozinho.

– E então? Responde logo que tenho mais o que fazer, não escutou meu subordinado, homem?

Aquele ser olhou para mim com sua cabeça preguiçosa e finalmente abriu sua boca.

– A senhora, se não estou enganado…

– Senhor, homem. Senhor – disse eu com fulgor assombroso nos olhos.

– Desculpe a minha ignorância meu senhor. Mas é que em assuntos de mortes não sou versado, mesmo tendo vivido bastante. Mas eu ia perguntando: o senhor, se não estou enganado, é o Morte, não é?

– Sim, e orgulho-me de ser temido e odiado por vós.

– Pois que seja, senhor. Aliás, menos mal que seja assim porque as pessoas aprendem a te respeitar com isso. As pessoas sempre aprendem o que é respeito através do temor e do ódio, infelizmente – sofismou o pobre coitado.

– Não! Não me diga que você é um daqueles revolucionários? Somente Marx fez com que trezentas mil almas cruzassem os braços para não entrar no rio. Por pouco meus subordinados não conseguem conter o levante que aqui se fez. Como sempre digo: malditos revolucionários!

– Não sou, meu senhor. Quanto a isso fique sossegado. Sou um simples homem mesmo. Daqueles que ninguém sentirá falta quando eu me for. Quero dizer, agora que me fui.

– E por que está aqui a chorar? A contemplar com pesar o seu calvário? Não acha então que seria melhor abraçar esta morte e vivê-la de modo que os mortos se lembrem de ti quando tua morte também se extinguir e fores daqui para outra condição anímica que não a vida e também não a morte?

– Não estou triste com minha morte, meu senhor. Nem tampouco penso na minha pós-vida. Quanto mais na minha pós-morte. Eu só estou a admirar o senhor, só isso.

– Só isso? Oras, mas que belo exemplar de filósofo eu fui ter aqui, não? Pois que vai rolar barranco abaixo agora mesmo.

– Vou sim, senhor Morte. Não me importo. Só queria antes poder olhar mais um pouquinho só este rio que tantas almas tem dentro de si.

– Já olhou bastante. Agora bunda à mostra que meu pé a espera.

A conversa poderia ter ficado por aí. Eu ficaria feliz com a tarefa cumprida. E tudo seguiria como sempre seguiu. Sou Morte de paz e amante da ordem. Gosto do tradicional e do que funciona. Como dizem os seus: “em time que se ganha não se mexe”. Mas aquele vermezinho não conseguiu ficar com a língua dentro da boca.

– Olha senhor Morte. Antes de ir-me, deixe apenas perguntar uma coisa.

– Sim, pergunte.

– Os homens, eles são eternos?

– Como assim, criatura?

– Digo, a humanidade, ela sempre vai existir? Estará ela daqui vinte séculos, ou mais, daqui vinte milhões de séculos?

– Não me pergunte bobagens, ora! Sabes que nada neste mundo permanece para sempre.

– Então quer dizer que a vida também não é eterna?

– Nem ela, nem nada, como já te disse.

– E qual o teu ofício mesmo, senhor Morte?

– Bem o sabes, homem. Pois que é tirar das pessoas, dos animais, das flores e de tudo o mais a centelha denominada vida.

– Entendo.

– Entende o que?

– Ora, senhor Morte. É simples. Mas antes me responda mais uma coisa: acaso tu és imortal?

– Mas é claro que sim. Apenas eu, dentre todas as coisas que a Inteligência criou, é que possui essa qualidade.

– E mais outra: acaso sabes fazer outra coisa na vida que não matar?

– Que pergunta mais besta esta. É claro que não. Matar é minha especialidade única. Ninguém faz isto como eu!

– Entendo.

– Ora seu… fale de uma vez por todas ou cale-se para sempre.

– Senhor Morte, o que farás quando a vida no mundo cessar?

– Que disse?

– O que é que vai acontecer, e era nisto que eu estava pensando quando sentei-me aqui, quando todo o mundo morrer, e o senhor não tiver mais nem uma alma sequer para ceifar? Vai fazer o que da sua vida? Sabe, eu tenho pena do senhor por este fado que carrega consigo. Deve pensar nisto a todo instante, eu presumo. É por isso que o admiro.

Eu não pensava. Aliás, nunca pensei e nem sequer havia formulado o postulado que o maldito homem proferira em seu literal leito de morte. Se eu acreditasse nos remédios humanos, provavelmente tomaria algum para a corrosão do estômago (creio que entre os humanos isto se chame gastrite!), pois escutando isto não me controlei e joguei o homem com minhas próprias mãos no fundo do rio. Ele caiu, inerte. Mas a minha vingança não foi o suficiente. Aquele pequeno monstro havia me dado o que pensar, afinal! Depois de milênios gozando de prestígio entre todos os mortais, eu agora era o mais novo desempregado perpétuo, posto que o maldito serzinho havia me alertado para este problema de ordem cósmica: o que fazer da minha vida… errr… que estou a dizer? os nervos já estão muito atacados por causa disto… o que fazer da minha morte? Nos dias que se seguiram caí em profunda depressão. Já não matava mais com o prazer de antes, como um carnívoro que enjoa de comer carne. Fiquei letárgico por várias décadas e praticamente entreguei meu negócio aos meus acólitos, que cuidam de tudo para mim até os fins dos dias. Não sei o que faço, sinceramente, não sei. Estou desesperado e com um ódio mortal que sei, não poderei aplacar, visto que o serzinho culpado por isto tudo descansa enfim nos pés de seu adorado deus. Como eu tenho saudades dos revolucionários!… Malditos filósofos!!!

*Israel Fabiano Souza:

escreve em sua maioria contos que versam sobre literatura fantástica. Acabou de escrever um livro sobre lobisomens e tem mais três projetos em andamento. Dois dos projetos versam sobre o tema aqui tratado e o outro projeto o autor pretende publicar como romance. Bloga em http://ocontidiano.blogspot.com. Twitter: @akularith / Email: akularith[a]gmail.com

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4 Respostas para “Variação #3:

  1. Sympathy for the Devil

    Em março de 1940, Mikhail Bulgakov aguardava o encontro com o Mestre; sua invenção tornou-se princípio e fim de sua própria vida, e assim se desdobraria para gerações futuras, mas, em 1940, Mikhail Bulgakov tinha problemas com o mal, devidamente encarnado, e muitas vezes multiplicado, por fatores administrativos e militares. Mesmo assim, com todos seus demasiados problemas, Mikhail Bulgakov parecia recitar um poema, ou assim pareceu a Yelena, sua esposa, um poema de outro mestre: “Vós, porém, quando chegar o momento / em que o homem seja bom para o homem, / lembrai-vos de nós / com simpatia”. Com ironia, no sardônico sorriso de Mikhail Bulgakov via-se como que escrito “Está feito”. Yelena não cerrou os olhos do marido por acreditar que, deixando-os assim, abertos, Mikhail Bulgakov ainda passearia pelo céu, à garupa do Mestre, no esquecimento da morte.

  2. Concordo com o comentário acima. Essa foi a minha variação preferida. Eu li há uns cinco dias e não consegui parar de pensar no texto e no assunto. Fiquei bastante curiosa sobre os projetos com este tema.
    Fiquei com pena da Morte (pra mim, ela segue no feminino… hahaha – embora eu acha que deveria ser um ser assexuado, um it)mas, quando este mundo acabar, que migre para outro, para outro Universo e nunca morra.
    Afinal, só a morte para impulsionar a vida.
    Texto muito, muito bom mesmo!

  3. Obrigado pelos comentários, pessoal. Aproveitei que o livro estava fresco na minha cabeça e acabou dando isso… Eu concordo com a M, sem a morte, talvez não sejamos capazes de dar um valor adequado à vida, e acho que assim ela se banalizaria ainda mais… Quanto ao Morte, quis mesmo é fazer uma brincadeira entre gêneros mesmo, não que seja um feminismo às avessas, mas achei legal brincar um pouco com os artigos que sempre usamos para definir todas as coisas. Mas concordo que quando se trata de algo tão complexo como a/o morte, acho que um “it” seria mesmo mais adequado… hehe…
    Mais uma vez, agradeço pela leitura e pelos comentários.
    Abraços.
    Israel.

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