Variação #4:

  por Marcos Vinícius Almeida*

Vende-se: sapatos de bebê, sem uso.

Ernest Hemingway

Breviário de Salomão.

amor

Feito a escova de dentes que caísse, abandonada atrás da pia do banheiro, onde duas semanas depois, ele a encontraria com as cerdas esturricadas; primeiro surpreso, você esteve aí esse tempo todo, e depois, sem culpa, enfiaria no lixo, porque outra escova, nova e de melhor qualidade, estava guardada no armário.

***

violência

Quando o pai saía com a testa suada, a mãe entrava no quarto e dizia para a menina que ela deveria esquecer aquilo. Então, lhe dava o chocolate.

***

amigos de bar

Os caras no banheiro o esperavam para cheirar, o pó estava no seu bolso. Ele saiu sem beijá-la, já não a beijava, e depois, sozinho, se mijou na cadeira, com os olhos virados, enquanto o dono do bar, rindo e a ponto de se mijar também, batia com força à porta do banheiro, chamando os caras no banheiro pra ver.

***

assimetria

Deixou o emprego de anos, sem avisá-la, entrou no ônibus e partiu para a cidade. Enquanto ele não conseguia dormir no ônibus, por causa dessa estranha mulher que não parava de falar sobre a reforma da casa, ela (na cidade, sem esperá-lo), sorria de consciência limpa, sentindo os pelos da barba de um outro homem entre suas pernas suadas.

***

azul cobalto

Abaixou as calças até os joelhos, sem tirar os sapatos ou a blusa, deitado de lado na cama, e o sangue escorria do vazio dela para o ventre dele. Ele tirou, sujo de sangue e colocou atrás, devagar, e ela consentiu. Mas eram os olhos dela que ele queria ver, então puxou o cabelo, e reparou que eram os mesmos, iguais aos olhos do filho dela, pequeno, do qual ele era professor.

*

De volta à sua casa, e o marido não perguntou porque os cabelos dela estavam molhados, sentada no vaso enquanto o sangue ainda escorria, ela ouviu o marido tomar a lição do filho; o espelho a encarou e um arrepio frio subiu pelo corpo, mas ela não sabia explicar porque.

***

rei

Disse que precisava dela, assim, olhando para ele quando ele estivesse no topo, bem no topo, quando fosse o gerente, que sem ela não fazia sentindo. E ela sorriu, dizendo que, sim, sempre estaria aqui para vê-lo. Bem no topo, ele disse. Sim, bem no topo, ela disse, e a planta podre e viscosa ia crescendo e se espalhando vigorosamente dentro dela.

***

tudo bem

Quando ela entrou em casa ele dormia no sofá, sem sapatos, mas com a roupa que tinha saído cedo, dizendo que ia procurar trabalho. Ela já não aguentava mais, o acordou e disse que ele precisava ir embora. Dessa vez ele não disse nada. Enfiou poucas coisas na mochila e disse que depois voltava para pegar o resto. E não voltou mais; e quando ela encontrou a foto, hesitou um pouco, só um pouco: enfiou tudo numa caixa e o caminhão levou.

Então ele bateu à porta seis meses depois, mas ela não estava lá, um homem muito simpático atendeu. O homem insistiu que ele esperasse, mas não, ele não suportaria.

***

bilhar

O Biela e o Tomate iam ganhar a terceira partida dos caras, e os caras estavam de saco cheio porque o Biela ajeitava os óculos e não errava e o Tomate puxava a cinta e não errava e vinham matando todas as bolas e todo mundo ali estava rindo dos caras, mas os caras tinham tomado quatro cervejas e três cachaças e quando a bola estourou na caçapa e todo mundo riu dos caras, os caras quebraram três garrafas seguidas na cabeça do Biela; sobrou só uma pra cabeça do Tomate.

***

cidade

Biscoito era bolacha, ou o contrário, e pegando o ônibus ao contrário seus olhos não reconheceram nem um palmo de chão. Estava com fome e enfiou-se na primeira lanchonete onde o mendigo, sujo, disse, que se pagasse um pastel, ele o ajudava a voltar. Os dois, perdidos, sentaram-se à mesa enquanto o cheiro de gordura velha enchia o ar.

***

Deus.

Não adiantava correr, ia chegar atrasado de qualquer forma. Mas tinha se esquecido que o chefe não ia aquele dia.

*Marcos Vinícius Almeida:

nasceu em 1982, em Taboão da Serra, na grande SP. Viveu desde sempre em Luminárias-MG, com breves passagens por São João del Rei-MG e Porto Alegre-RS. Publicou seu livro de estréia em 2009, um romance: Inércia (Ed. Multifoco). Publicou alguns contos em antologias, sites, jornais e revistas: Cult, Suplemento Literário de MG, Germina, Cronópios, Escrita, Histórias Possíveis, Diversos & Afins, Jornal Opção, entre outros. Venceu o Prêmio UFES de Literatura 2009/2010. Edita o Selo Terceira Margem (Ed. Multifoco), voltado para autores mineiros. Site: http://www.quebracorpo.com.br Blog: http://quebracorpo.blogspot.com

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4 Respostas para “Variação #4:

  1. Embora não goste da sensibilidade do Hemingway, gostei da desse cara. No meio de tanta assimetria, sei lá, o fato de partilhar com ele duas palavrinhas, Marcos e Almeida, me fez pensar que os Marcos e os Almeidas desse mundo tem uma conjunção cósmica balizada pela língua portuguesa e um desespero desse desencanto todo se perder e, com ele, o assunto. Mas onde é que eu tava mermo?

  2. “Pedaços”, acho que esta palavra do amigo Diego serve bem para esta variação. São pedaços de sentimentos de opiniões que chegam a nos fazer refletir. O autor mew parece sensível.

    Um abraço!

  3. Essa variação me perturbou – provavelmente num bom sentido, quase às lágrimas.
    E principalmente a frase de Hemingway. Ela está escoando pela minha cabeça e eu li há semanas essa variação. Minha irmã está grávida. Essa variação foi um golpe – e belos e violentos fragmentos. Mexeu comigo. De verdade.

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