Variação #6:

por Camila Fontenele*

Solilóquio

Vão dizer quantas pessoas podem sair de casa, a quantas horas, por quanto tempo, e por onde será permitido caminhar, durante quantos minutos, para que as turmas seguintes não sejam prejudicadas na regalia de ir e vir na cidade entupida?
Vão acabar com a cidade, todas as cidade, vão acabar com o homem e a mulher também, vão fazer o quê, depois que eles mesmos acabarem?

DE NOTÍCIAS E NÃO-NOTÍCIAS faz-se a crônica, de Carlos Drummond Andrade

Solilóquio (Camila Fontenele)

Solilóquio (Camila Fontenele)

Coisas de graça

– Queria. Por que não? Se este cafezinho me é servido de graça neste instante, e se eu voltar daqui cinco minutos depois, e mais cinco e mais cinco… até eu ficar entupido de café e bradas: chega, não quero mais! Por que não posso pensar que uma sociedade bem organizada serviria tudo a todos, a troco de sorriso?

DE NOTÍCIAS E NÃO-NOTÍCIAS faz-se a crônica, de Carlos Drummond Andrade

Coisas de graça (Camila Fontenele)

Coisas de graça (Camila Fontenele)

O outro

Depois, não só um Outro. São muitos, são vagos, são indefinidos: os Outros. Que é que os outros vão dizer? Mas os outros nunca dizem nada, apenas se receia que eles digam alguma coisa desabonadora ou cruel. Quem costuma dizer, e é antes abonador, é o Outro. Mas abona escondido, sopra ou insinua a sentença oportuna, para que ela corra mundo sem que o Outro, pessoalmente se comprometa. O Outro tem medo?

DE NOTÍCIAS E NÃO-NOTÍCIAS faz-se a crônica, de Carlos Drummond Andrade

O outro (Camila Fontenele)

O outro (Camila Fontenele)

Colecionadora

 – Quem lhe disse que o guarda-chuva há de ser preto, e que o preto é necessariamente uma cor desolada? A alegria dos pretos, a musicalidade, o samba, o senhor acha isso triste? E tem guarda-chuva de toda cor, não só guarda-sol que pode ser enfeitar de cores. A gente é que não sabe colorir a vida, e cria preconceito de que a determinadas coisas devem corresponder determinadas cores.

DE NOTÍCIAS E NÃO-NOTÍCIAS faz-se a crônica, de Carlos Drummond Andrade

Colecionadora (Camila Fontenele)

Colecionadora (Camila Fontenele)

*Camila Fontenele:

Estudante de publicidade, fotógrafa amadora, escritora por vontade, cantora de chuveiro, colecionadora de desapontamentos, viciada em post-it e café. Blog: http://asimplesedoceironia.blogspot.com / Flickr: http://www.flickr.com/photos/pelos_olhos_de_camila / Twitter: @ca_fontenele

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2 Respostas para “Variação #6:

  1. A variação em imagens descoladas, ou a posteriori, dos trechos do cronista Drummond de Andrade (não sou admirador de seu trabalho como cronista, mas, afinal, era um trabalho) é, em si, interessante. Na minha opinião, porém, termina por inverter a máxima falsa segundo a qual “uma imagem vale mais que mil palavras”, comprovando que mesmo algumas palavras singelas são, em si, expressão mais rica que as imagens, por melhores que elas sejam e que, afinal, terminam por ser interpretadas por palavras; por mais que se queira frui-las como “sensações”, nossa fúria cognitiva busca o signo verbal e nele se encontra mais plenamente. Ou será que vemos um lindo crepúsculo e guardamos a sensação inerente sem nenhum conciliábulo com as suspetisíssimas palavras?

  2. A ideia de dar “imagem” para as palavras de Drummond é no mínimo original. O que me deixou preso às imagens foram a capacidade da “variadora” em sentir as palavras do cronista, de compreendê-la e transportá-las para a sua realidade. Ótimo trabalho.

    Abraço.

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