Variação #3:

por Israel Fabiano Souza*

Nós, as sectoriais, pensou a morte, somos as que realmente trabalhamos a sério, limpando o terreno de excrescências, e, na verdade, não me surpreenderia nada que, se o cosmo desaparecer, não seja em consequência de uma proclamação solene da morte universal, retumbando entre as galáxias e os buracos negros, mas sim como derradeiro efeito da acumulação das mortezinhas particulares e pessoais que estão à nossa responsabilidade, uma a uma…

In: As intermitências da morte, de José Saramago

As implicações filosóficas da morte

Reli mais uma vez a lista: estava completa. Mesmo assim faltava um. Olhei para um lado, olhei para o outro e nada de encontrar o miserável que me faltava aos olhos. Despachadas todas as almas, fui cuidar de verificar mais atentamente o que havia acontecido. Foi quando vi o senhor lá em cima, no barranco, a olhar para baixo. Não pude acreditar na ousadia daquele ser que insistia em não querer descer. Tive que ir até lá. Num átimo estava eu perto da criatura que havia me tirado do sério e, acreditem, nestes milênios todos que estou a acompanhar o fenômeno vida neste planeta, foram poucas as vezes que conseguiram fazer meu estômago ferver de cólera, salvo os revolucionários e os filósofos: estes sim, são um estorvo à minha pessoa! Continuar lendo

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Variação #2:

por Marcos Nunes*

Encontrei algumas pessoas que já vinham correndo e voltei com elas. Nessas alturas, a casa não era mais que uma horrível e imponente pira funerária, monstruosa pira funerária que iluminava tudo, pira funerária onde homens ardiam, e ele também estava sendo queimado. Ele, ele, meu prisioneiro, o novo Ser, o novo Senhor, o Horla! De repente, o telhado desabou entre as paredes, e um vulcão de chamas voou até o céu. Pelas janelas abertas naquela fornalha, vi as chamas disparando e pensei que ele estivesse lá, naquele forno, morto. Morto? Talvez?… Seu corpo? Não seria seu corpo, transparente, indestrutível pelos meios que conseguiam matar os nossos? E se ele não estivesse morto?…

Talvez só o tempo tenha poder sobre esse Ser Invisível e Terrível. Qual a razão desse corpo transparente e irreconhecível, esse corpo pertencente a um espírito, se também tem de temer doenças, fraquezas e ruína prematura? Ruína prematura? Todo o terror humano tem aí sua origem! Depois do homem, o Horla. Depois daquele que pode morrer todo dia, a toda hora, a todo momento, de qualquer acidente, veio o que morreria apenas na hora, no dia e no minuto apropriado, porque tocara os limites de sua própria existência! Não… não… sem dúvida… não está morto… Então… então… acho que terei de me matar!…

In: O Horla, de Guy de Maupassant

Rio de Janeiro, antes do Sena

Ele nasceu em São Paulo; sempre pressentido, nunca visto. A maioria parecia sorrir diante da hipótese, negava qualquer premonição como coisa de gente supersticiosa, sem informação, do tempo da iluminação à base de archotes, da dança da chuva, “auá, auá” faziam e dançavam, gozando.

Entretanto, não foi por falta de provas materiais, quer dizer, pela ausência de certas coisas materiais, e alguns movimentos de objetos incapazes de moto próprio.

Mas alguns insistiam:

– Não passa de medo em crescendo, motivado por coincidências banais que ratificam os temores, acumulando-os até o pânico.

– Mas ele está entre nós, aliás vários deles; são invisíveis, mas existem, não são uma doença da mente.

– Há algum parecer médico conclusivo?

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Variação #1:

por Mayra Lopes do Couto*

SACHA

Varvara Mikhailovna quase nunca saía de perto de mim. Seu rosto doce e redondo, o cabelo castanho e cacheado, reconfortavam-me. Quando papai saía do quarto, ela subia na cama e me abraçava, esfregando sua face na minha, tão próxima, sem nenhum medo de pegar minha doença.

Nós nos havíamos tornado grandes amigas. Embora nos conhecessemos há muitos anos, em Moscou, não nos víamos há bastante tempo. Mas nossa correspondência se tornou mais extensa e íntima e, finalmente, convenci mamãe a deixá-la vir morar conosco. Trabalho de secretária é sempre necessário em Iasnaia Poliana, e Varvara sabe datilografar e tomar ditados.

Agora, está aqui há vários meses e começamos a nos amar, no puro amor de Cristo. Partilhamos todos os temores, todas as esperanças. Costumamos nos tocar: uma mão na outra, queixo no queixo. Chamamos e respondemos, alternadamente, deleitando-nos com o fluxo do verdadeiro afeto. (p. 104-105)

A visita a Mechetcherkoie, para mim, não era a mesma coisa sem Varvara. É doloroso para mim separar-me dela, mesmo por pouco tempo. Mas prometi escrever todos os dias. De alguma forma, o pensamento de poder escrever cartas afetuosas tornou a separação suportável, até atraente.

Na noite anterior à partida fui às escondidas para o quarto de Varvara, quando a casa toda já dormia, e coloquei a cabeça em seu ombro; aninhei-me junto dela durante uma hora, ou mais, escutando sua respiração, espiando a elevação ritmada de seus seios, como ondas encapelando-se ao largo, quebrando-se na praia, recolhendo-se, encapelando-se outra vez. A mão dela dobrava um cacho do meu cabelo para frente e para trás. Foi mais lindo do que dormir. (p. 159-160)

PARINI, Jay. A Última Estação. Os últimos dias de Tolstói. Tradução: Sonia Coutinho. Rio de Janeiro: Rocco, 1991.

 

Varvara Mikhailovna

Nunca deixei de me corresponder com Sasha. Estudamos juntas em Moscou e, enquanto crescíamos, Leão Nikolaievitch já era um grande escritor e tornou-se o homem mais importante da Rússia. Lembro-me de que Sacha sempre manteve os pés no chão, ao contrário de seus irmãos, deslumbrados com a riqueza, a fama, o sobrenome de peso e os títulos de nobreza do pai. Naturalmente, quando Leão Nikolaievitch, em sua infinita sabedoria e mantendo um profundo contato com os camponeses locais entendeu a fonte dos problemas entre as classes e demonstrou total e completa ojeriza aos aprisionadores modelos burgueses e à má distribuição do capital russo, ele fez inúmeros inimigos enquanto, ao mesmo tempo, tornava-se ainda mais amado até mesmo pela parte analfabeta da população. Continuar lendo

Aviso

A publicação da Variação #1 estava prevista para essa semana. Mas, por questões práticas, decidimos adiá-la para depois do Carnaval. Isto é, a Variação #1 agora estará no ar apenas a partir do dia 14 de fevereiro.

Guardem bem essa data! De resto, estaremos no twitter atualizando vocês. Até!

Em breve: Variação #1

variação
s. f.
1. Ato ou efeito de variar.
2. Mudança, modificação.
3. Pop. O mesmo que delírio.
4. Mudança numa ordem de factos.
5. Astron. Desigualdade do movimento lunar.
6. Biol. Aparecimento num indivíduo, ou num grupo de indivíduos de um caráter novo que não pertence tal qual a qualquer dos antepassados.
7. Fís. Mar. Ângulo que faz a agulha magnética com a linha dos polos (declinação).
8. Mús. Ornatos num trecho, de modo a conservar os elementos do tema principal.
9. Gram. Parte variável de uma palavra; flexão.

(Fonte: Dicionário Priberam)

 

Junte todas as definições acima – e suas variantes – àquilo que é literário; àquilo que é da literatura; àquilo que é e que pode  ser literatura. E, a partir desse mote, invista em derivações. Ou melhor: em variações – eis a proposta de AS VARIAÇÕES LITERÁRIAS.

Com variações criativas e textuais, queremos revisitar, como releitura, obras já publicadas. A verossimilhança com a ficção de origem não é fundamental – mas é a base, é o ponto de partida.

Queremos vivenciar  leituras sobre uma obra através de uma forma de escrever. E, assim, homenagear autores e obras, à medida que as releituras literárias-inventivas-ficcionais sejam publicadas.

 

Como colaborar

Aceitamos colaborações que, necessariamente, estejam dentro da proposta acima. As colaborações podem ser realizadas em formato de conto, poesia e, eventualmente, desenhos e fotografias. Todo material deve ser enviado para asvariacoesliterarias@hotmail.com, acompanhado de:

  • título, nome do autor e trecho da obra escolhida como fundamento da sua variação literária;
  • mini biografia do autor que está enviando sua colaboração.

Ao enviar seu texto, você já está de total acordo com a publicação, sem fins lucrativos, do mesmo.

A sua colaboração será recebida com muito entusiasmo. Mas, antes de publicada, passará por uma pequena avaliação e/ou revisão para que constatemos se ela se encaixa nos requisitos de nossa proposta. Em seguida, entraremos em contato com o autor.

Qualquer dúvida, entre em contato pelo email asvariacoesliterarias@hotmail.com