Variação #7:

por Hugo Crema*

 Algo de ese terror se trasformaba en gracia, en gestos casi esquivos, en puro deseo. (Algo desse terror se transformava em graça, em gestos fugidios, em puro desejo.) Do conto El Otro Cielo, do Julio Cortazar.

Gravidade aparente. Os trinta segundos deram espaço para um dos canais contar apenas metade da notícia, editada até o talo na tentativa de deletar as intrusões. Após usar o cameraman robusto para abrir espaço por entre a multidão, a repórter, sem consultar nenhuma possível testemunha ocular ou mesmo alguém que estivesse por perto na hora do ocorrido, noticia a cena óbvia; as feições de curiosidade carnívora das pessoas em volta caíram bem de pano de fundo, acentuaram o drama. Uma grávida inserida no grupo de curiosos que se avolumou em torno do que a repórter chama sucinta de atropelamento fatal na plataforma inferior da rodoviária guarda para si uma interjeição por tido seu pé pisado na pressa da equipe de filmagem. Chega a murmurar algo para o homem ao seu lado, mas a cara de dor dele a faz conter as palavras no último momento; não só isso, contém palavras também por causa de alguém mais alto que no exato do contido gemido de dor se posta bem na frente dela tampando a visão da cena e o alcance da reclamação, raiva surda, muda e cega. O problema é o estrondo dos carros passando a toda na pista em frente, não deixa ouvir nada do que a repórter diz. Perdem pouco: as escoriações na cabeça do corpo estirado suprimem qualquer dúvida, obviamente um atropelamento e obviamente fatal. Quem pôde ouvir a repórter era quem estava mais distraído; o homem à esquerda da grávida estava mais perto da clareira em torno do acidente, encalhou no meio da multidão procurando um banheiro e no momento relê as escoriações na lataria do carro, parado enviesado, a roda dianteira esquerda engolindo o meio-fio. Quando a raiva pelo pé pisado e pela obstrução da vista estoura a represa do silêncio, a grávida emparelha à direita do  homem alto e pergunta como é possível que um atropelamento destrua tanto a frente de um carro, ao que, a pretexto de perguntar onde fica o banheiro, o outro homem se intromete: pelo que ele viu do acidente, o lado direito do para-choque acertara o velho de raspão. A voz do motorista, recém-saído do carro, se submerge no barulho atrás de esconderijo e consegue, tanto é que, apesar da distância curta, a grávida e o alto só o veem gesticular violentamente, a boca desleixada sempre aberta, como se esquecida nesta posição. O homem multiplica a prestidigitação dos braços sem sucesso, ao tentar apoiar uma mão contra o ombro da repórter é avidamente repelido, ela deu um passo para trás e o cameraman faz menção de projetar o corpo levemente para frente: clara ameaça seriam as palavras que o atropelador usaria depois para caracterizar esta ação frente às câmeras de uma outra rede de televisão, a que se interessará por esta versão. Uma rede cujo repórter de campo demorou a chegar e cuja equipe de filmagem também pisa no pé da grávida. O porra amigo, toma cuidado, tem grávida aqui do homem alto confirma que o entendimento dele da irritação dela não precisou de palavras, e ainda foi reiterado por um pé displicente deixado no caminho do assistente de gravação para fazê-lo tropeçar. Funcionou em parte, não cai, tropeça, berra cambaleante ao cameraman para esperar por ele mas não é ouvido: mais um atraso em relação à emissora concorrente, cuja repórter já enfurecia a má-vontade adquirida do atropelador com perguntas que ele considerou em testemunho posterior ao repórter concorrente ofensivas e tendenciosas. Enquanto isso, o homem de caminho extraviado e bexiga cheia pergunta à grávida onde fica o banheiro, ao que ela retruca irritada e é acalmada pelo alto o qual, ao indicar a ele a direção, tampa a sua própria visão e a da grávida com o braço e perde a reviravolta. O repórter atrasado tenta arrancar o atropelador dos tentáculos das perguntas da rival, deu sorte porque o corpo estirado no chão recobrou a consciência, engrolou uma sequência de consoantes e começou a reivindicar pontuação inverossímil. Contando o número de hematomas e estimando a extensão e a profundidade de arranhões, resmungando; o velho mal levantou e vira presa dos repórteres. O alto entabula com a grávida um pré-assunto sobre o aguçamento das sensibilidades física e emocional na gestação, pretexto para um convite para um caldo de cana ali na rodoviária mesmo, ela concorda: os dois se afastando notam cada vez menos o murmúrio, nem chegam a ouvir o velho ressuscitado contar para a câmera da aposta feita com um amigo, velho e desenganado também, ganha quem colecionar mais machucados sem morrer. Depois de prometer ao proprietário do carro pagar os danos e depois de acompanhar, como prometeu, o repórter ao estúdio para uma exclusiva na qual tentarão explicar como uma queda de uns cinco metros, da altura da marquise, não matou o velho; ele pretende ligar para o seu amigo, que alegou doença para não ir filmar a façanha do dia, e contar sobre o aumento da coleção e a consequente tomada da liderança. A repórter entrou no carro de reportagem brava, tendo, durante a desmontagem do tripé, o seu pé fincado por uma das hastes, culpa do cameraman.

*Hugo Crema:

sou um brasiliense capricorniano que nunca publicarei meu primeiro romance, que já saí em certos sites e portais literários. Atualmente finalizo meu querido O BRANCO DO VASO DE FLORES e vivo de passado. Twitter: @hugocrema

Anúncios