Variação #5:

por Marcos Nunes*

Tornei-me o sangue que esguicha do célebre demônio branco, quando Rustam o racha no meio com sua espada maravilhosa; e estava nas dobras dos lençóis entre os quais ele faz furiosamente amor com a filha de seu anfitrião, o rei de Turã. Sim, eu estava e estou em toda parte, sempre. (…) Que sorte tenho de ser o Vermelho! Sou o fogo, sou a força! Todos me notam e me admiram, e ninguém resiste a mim. Devo ser franco: para mim, o refinamento não se esconde na fraqueza nem na sutileza, mas reside na firmeza e na determinação. Eu me exponho, pois, aos olhares. Não tenho medo nem das cores nem das sombras; menos ainda da multidão ou da solidão. Que prazer tenho ao pegar uma superfície oferecida ao meu ardente triunfo: eu a encho, expando-me nela; os corações se embalam, o desejo aumenta, os olhos se arregalam e todos os olhares brilham! Olhem para mim: é bom viver! Vejam como é bom ver! Viver é ver. Podem me ver em toda parte, creiam: a vida começa e se acaba sempre comigo.

In: Meu nome é vermelho, de  Orhan Pamuk.

Meu nome é vermelho

Ele certamente se perdeu percorrendo as vielas e esbarrando com os vendedores de narguilé ou, quem sabe, com as mulheres a preço, dissimulando a profissão com recatadas vestes em azul claro.

(De fato o aprendiz recebera ordens de adquirir pigmentos variados no principal estabelecimento de Istambul, juntamente com o itinerário regular, passando pelas avenidas e cortando caminho somente por três vielas confiáveis, mas ele, esperto, sabia que se percorresse rota alternativa teria tempo para apreciar, no estúdio do venerável Hasan al-Su’udi, o desenvolvimento das últimas iluminuras no livro encomendado pelo sultão em comemoração à Hégira) Continuar lendo

Variação #2:

por Marcos Nunes*

Encontrei algumas pessoas que já vinham correndo e voltei com elas. Nessas alturas, a casa não era mais que uma horrível e imponente pira funerária, monstruosa pira funerária que iluminava tudo, pira funerária onde homens ardiam, e ele também estava sendo queimado. Ele, ele, meu prisioneiro, o novo Ser, o novo Senhor, o Horla! De repente, o telhado desabou entre as paredes, e um vulcão de chamas voou até o céu. Pelas janelas abertas naquela fornalha, vi as chamas disparando e pensei que ele estivesse lá, naquele forno, morto. Morto? Talvez?… Seu corpo? Não seria seu corpo, transparente, indestrutível pelos meios que conseguiam matar os nossos? E se ele não estivesse morto?…

Talvez só o tempo tenha poder sobre esse Ser Invisível e Terrível. Qual a razão desse corpo transparente e irreconhecível, esse corpo pertencente a um espírito, se também tem de temer doenças, fraquezas e ruína prematura? Ruína prematura? Todo o terror humano tem aí sua origem! Depois do homem, o Horla. Depois daquele que pode morrer todo dia, a toda hora, a todo momento, de qualquer acidente, veio o que morreria apenas na hora, no dia e no minuto apropriado, porque tocara os limites de sua própria existência! Não… não… sem dúvida… não está morto… Então… então… acho que terei de me matar!…

In: O Horla, de Guy de Maupassant

Rio de Janeiro, antes do Sena

Ele nasceu em São Paulo; sempre pressentido, nunca visto. A maioria parecia sorrir diante da hipótese, negava qualquer premonição como coisa de gente supersticiosa, sem informação, do tempo da iluminação à base de archotes, da dança da chuva, “auá, auá” faziam e dançavam, gozando.

Entretanto, não foi por falta de provas materiais, quer dizer, pela ausência de certas coisas materiais, e alguns movimentos de objetos incapazes de moto próprio.

Mas alguns insistiam:

– Não passa de medo em crescendo, motivado por coincidências banais que ratificam os temores, acumulando-os até o pânico.

– Mas ele está entre nós, aliás vários deles; são invisíveis, mas existem, não são uma doença da mente.

– Há algum parecer médico conclusivo?

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