Variação #5:

por Marcos Nunes*

Tornei-me o sangue que esguicha do célebre demônio branco, quando Rustam o racha no meio com sua espada maravilhosa; e estava nas dobras dos lençóis entre os quais ele faz furiosamente amor com a filha de seu anfitrião, o rei de Turã. Sim, eu estava e estou em toda parte, sempre. (…) Que sorte tenho de ser o Vermelho! Sou o fogo, sou a força! Todos me notam e me admiram, e ninguém resiste a mim. Devo ser franco: para mim, o refinamento não se esconde na fraqueza nem na sutileza, mas reside na firmeza e na determinação. Eu me exponho, pois, aos olhares. Não tenho medo nem das cores nem das sombras; menos ainda da multidão ou da solidão. Que prazer tenho ao pegar uma superfície oferecida ao meu ardente triunfo: eu a encho, expando-me nela; os corações se embalam, o desejo aumenta, os olhos se arregalam e todos os olhares brilham! Olhem para mim: é bom viver! Vejam como é bom ver! Viver é ver. Podem me ver em toda parte, creiam: a vida começa e se acaba sempre comigo.

In: Meu nome é vermelho, de  Orhan Pamuk.

Meu nome é vermelho

Ele certamente se perdeu percorrendo as vielas e esbarrando com os vendedores de narguilé ou, quem sabe, com as mulheres a preço, dissimulando a profissão com recatadas vestes em azul claro.

(De fato o aprendiz recebera ordens de adquirir pigmentos variados no principal estabelecimento de Istambul, juntamente com o itinerário regular, passando pelas avenidas e cortando caminho somente por três vielas confiáveis, mas ele, esperto, sabia que se percorresse rota alternativa teria tempo para apreciar, no estúdio do venerável Hasan al-Su’udi, o desenvolvimento das últimas iluminuras no livro encomendado pelo sultão em comemoração à Hégira) Continuar lendo